A Dança

Yuna-sending-dance-re

Já escrevi algumas coisas por aí. Contos, poesia, crônicas esdrúxulas. Ultimamente tenho perdido o costume de escrever, mas eu tenho de voltar a exercitar. É muito bom ver o texto final, mesmo que sempre defeituoso.

Esse texto específico eu escrevi enquanto jogava Final Fantasy X. Fiquei maravilhado com o jogo: minhas expectativas eram mínimas. Me surpreendi bastante com o enredo, apesar de alguns personagens estranhos demais (Jogadores de “futebol”? Hein?).  Leiam o curto texto baseado em uma das cutscenes do jogo, com o vídeo logo abaixo também.

A Dança

Caminhando serenamente sobre as límpidas águas do grandioso oceano cujo nome não possuo o privilégio de recordar, ela prepara-se para A Dança. Solene, cada passo timidamente avança seu caminho até o centro. Braços entrecruzados à sua frente, portando com firmeza seu fino cajado tão azul como seus indumentos, que recobrem seu corpo ao qual hesito em deslizar meus olhos através da silhueta. Não poderia fazê-lo. Não neste momento.

Vagarosamente, começa os primeiros passos. Seus movimentos são graciosos e refletem muito mais profundo do que estes pequenos globos brancos podem distinguir; sua face é séria e melancólica e é com muito esforço que se mantém erguida. Posso ouvir sussurros e murmúrios lamentosos em meio ao belo Hino e ao borbulhar da água sob seus pés. Talvez também pudesse distinguir o leve farfalhar das folhas tropicais próximas e o ranger da madeira semidestruída aos pés da platéia se não estivesse tão absorto.

Perplexo diante de tamanha beleza e morbidez – que nunca concebi que poderia presenciar tão próximas – me assusto com o pequeno explodir de uma tocha que começa a exibir uma chama azul, bruxuleante e fria, ao invés da vermelha e quente. Minha visão é novamente atraída à dança e seu espetáculo luminoso. Espíritos brotam da água, semelhantes a borboletas, deixando um rastro arco-íris no ar durante seu voejo. Inúmeras almas vindas dos sarcófagos que bóiam a meio caminho do fundo da água rasa; vidas arrasadas em um ciclo que ninguém pode recordar do início, mas ousam arriscar-se em pôr um fim.

Mulheres choram por seus maridos. Pais agonizam por suas crianças perdidas. Meus companheiros permanecem superficialmente impassíveis, indiferentes, mas choram em desgraça ao interior. Dói, mas ignoro as presenças alheias. Agora somos apenas eu, os mortos e ela. Um fluxo d’água forma-se vacilando em seus pés, tomando força e erguendo-a um pouco. Afasto da mente o encanto inerente da cena para mergulhar apenas em sua tristeza.

Os mortos precisam de Guia. Os vivos precisam de Esperança. Daremos isto a eles.

Assim, não mais precisarei vê-la dançar.