Chupa que é de uva

Chupa-que-e-de-uva

Lá pelos idos de 2008, eu costumava escrever vez ou outra sobre o meu cotidiano. Tomado pela ebriedade de um estudante novato de faculdade, escrevia sobre o que denominávamos de “cultura trash”. Aí vai um exemplo. Publiquei esse texto originalmente lá no Recanto das Letras.

Chupa que é de uva


“Me deixa maluca, Tira o mel da fruta, Me mata de amor, Me mata de amor”

Os versos da música ecoam na minha cabeça sem nenhum impacto. Invariavelmente todos os dias sou obrigado a ouvi-la, de forma repetida e cadenciada, mesmo contra a minha vontade. É a música do momento, predileta de qualquer bar onde se reúnam alguns chifrudos e mulheres de má fama, toca nas rádios e até a piranha da vizinha vive a cantarolar enquanto toma banho. Dá até vontade de parar de espiá-la nesses momentos, mas ainda não me irritei a este ponto.

“Me deixa maluca, Tira o mel da fruta, Me mata de amor, Me mata de amor”

Novamente eu a ouço. Queria ter audição seletiva, mas não tenho. A voz, aguda e tosca, desperta meu interesse. Olho para a esquerda e fico incrédulo, quase boquiaberto. Um homem corpulento estava sentado ao meu lado no ônibus, com as costas curvadas, fones de ouvido e a ler um dicionário. Também usava óculos e tinha uma cara de retardado pior que a minha.

Passo alguns segundos na minha descrença, olhando para o indivíduo. Este ainda não percebera o meu olhar e, depois de um momento, vira o rosto pro seu lado esquerdo, enfiando a cara na janela. E canta mais um pouco, numa grotesca tentativa de imitar uma voz feminina.

“Me pega no colo, Me olha nos olhos, Me beija que é bom, Me beija que é bom”

Ninguém além de mim parece presenciar aquele show de horror. Seguro meus risos ao percebê-lo levantando, estava em seu ponto. Ele percebe meu olhar sarcástico, engrossa um pouco a voz e cantarola:

“Na sua boca eu viro fruta, Chupa que é de uva, Chupa, chupa, Chupa que é de uva”